"Deus em sua incompreensível bondade infinita, viu por bem honrar suas criaturas com a dignidade do livre-arbítrio. Algumas podem ser chamadas amigas Suas; outras, fiéis e legítimas servas; outras, de todo modo inúteis; outras, bárbaras e afastadas d'Ele; outras, Suas inimigas e adversárias."
Assim São João Clímaco inicia seu livro Santa Escada também conhecida como Escada do Céu. É um clássico da espiritualidade católica do santo que viveu de 581 a 606, como eremita do Sinai.
Sua obra que pretende mostrar através de vários capítulos uma escada em que a cada degrau o cristão vai subindo. Embora escrito a tanto tempo e baseado na vida dos monges, é um livro maravilhoso que toca na alma como se o santo estive dirigindo-se especialmente para quem lê.
Já em seu primeiro parágrafo, mencionado acima, o santo dá uma descrição perfeita da relação das almas com Deus. E em seguida ele continua explicando:
"Amigos de Deus são aqueles entes intelectuais e espirituais que com Ele moram. Servos fieis são aqueles que, sem preguiça e sem cansaço, obedecem à Sua santíssima vontade. Servos inúteis são aqueles que, depois de terem sido lavados com a água do santo Batismo, não guardam o que nele assentaram e capitularam. Bárbaros são aqueles que estão arredados de Sua santa fé. Adversários e inimigos que não contentes de ter sacudido de si o jugo da Lei de Deus, perseguem aos que procuram guardá-la.
Cada uma destas classes de pessoas requer especial tratado, mas o nosso propósito é tratar somente daquelas que merecem, justamente, ser chamadas fidelíssimos servos de Deus. Foram estes que, com a força potentíssima da caridade, nos impeliram a tomar essa carga; e por obediência, sem desculpa, estenderemos a nossa rude mão, tomaremos a pena, molhá-la-emos na tinta da humildade, para escrever em seus brandos e piedosos corações, como em tábuas espirituais, as palavras de Deus. Todavia, e antes de tudo, assinalemos que Deus se oferece e propõe, por verdadeira vida e saúde, a todos que tem vontade e livre-arbítrio, sejam fiéis ou infiéis, justos ou injustos, religiosos ou irreligiosos, seculares o monges, sábios ou ignorantes, sãos ou enfermos, moços ou velhos, tal como a comunicação da luz, a vista do sol e o curso do tempo, que são feitos para todos, e começaremos pela definição de alguns vocábulos que mais aproveitam ao nosso propósito.
Irreligiosa é a criatura racional e mortal, que por sua própria vontade foge à vida, tratando seu Criador como se acreditasse que Ele não existe. Iníquo é aquele que violentamente torce o entendimento da Lei de Deus, para conformá-la com seu apetite e, sendo de contrário parecer, pensa que crê na palavras de Deus. Cristão é aquele que trabalha por imitar a Jesus Cristo, tanto em Suas obras, como em Sus palavras, crendo firmemente na Santíssima Trindade. Amante de Deus é aquele que, ordenadamente e como deve, usa de todas as coisas naturais e nunca deixa de fazer o bem que pode. Continente é aquele que, no meio das tentações e laços, trabalha com todas as suas forças para alcançar paz e tranquilidade de coração e bons costumes. Monge é uma ordem e modo de viver de anjos, estando em um corpo mortal; monge é aquele que traz sempre os olhos da alma postos em Deus, e faz oração em todo o tempo, lugar e negócio: monge é uma perpétua contradição e violência da natureza, uma vigilantíssima e infatigável guarda dos sentidos; monge é um corpo casto, uma boca limpa, e um ânimo triste, o qual, trazendo sempre diante dos olhos a memória da morte, sempre se exercita na virtude.