Como deveria ser a música nas igrejas segundo São Pio X

22/02/2025

Antes das reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II e da introdução do Novus Ordo Missae, havia uma unidade na liturgia da Igreja em todo o universo, de maneira que um peregrino que estivesse na China ou em alguma ilha do Pacífico, assistiria à mesma Missa que se celebrava em Roma ou em qualquer outra parte do globo.

Por Plínio Maria Solimeo

Embora a maioria dos fiéis não entendesse o latim em que a liturgia era celebrada, no entanto durante a Missa havia um recolhimento e uma devoção muito grandes, que facilitavam a prece e não permitiam os desmandos que vemos em quase toda parte nas igrejas hoje. Isto acontece porque, em vez de se ter presente que a Missa é a renovação incruenta do sacrifício do Calvário, os fiéis agem como se estivessem numa festa profana.

Naqueles idos tempos, para acompanhar o Santo Sacrifício, algumas pessoas mais cultas o seguiam em seu pequeno Missal, e as mais simples rezavam o Rosário ou algumas orações de sua devoção. Contudo, todas participavam igualmente da sagrada liturgia, fosse qual fosse o modo com que o faziam.

Desde tempos imemoriais a Igreja sempre zelou pelo decoro e respeito dentro do templo sagrado. As mulheres se vestiam modestamente — nada de micro-shorts, bermudas e decotes indecorosos como vemos hoje —, e mantinham a cabeça coberta em sinal de respeito à presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os homens punham seus melhores trajes e se ajoelhavam pelo menos durante a Consagração e para a Sagrada Comunhão, que recebiam piedosamente na boca. Pois não passava pela cabeça de ninguém que pudesse ser de outro modo. As músicas cantadas eram piedosas e recolhidas.

Contudo, por causa do pecado original, em todas as épocas sempre houve abusos. Por isso, já o Santo Concílio de Trento (1562-1563) proibiu nas igrejas "músicas no órgão como no canto [em que] se misturassem coisas impuras e lascivas".

No decorrer dos séculos vários foram os Pontífices que escreveram sobre a música sacra e como ela deveria ser cantada nas igrejas, sempre insistindo no respeito e no conteúdo da mesma, que deveria ser exclusivamente religioso.

No início do século XX, embora não houvesse ainda os abusos que com o tempo vieram com a modernização da liturgia e as reformas do Vaticano II, começaram a surgir durante as Missas conjuntos musicais e orquestras, passando as músicas sacras a serem cantadas de modo operístico, mais próprio ao teatro que ao templo sagrado.

São Pio X e a música sacra

Foi contra isso que se insurgiu o Papa São Pio X (1835-1914), publicando no dia 22 de novembro de 1903, três meses depois de iniciar seu pontificado, o Motu Proprio Inter pastoralis officii sollicitudines (Entre os cuidados do ofício pastoral), no qual dava normas concretas de como deveria ser a música durante os ofícios divinos.

No intuito de fazer a Igreja voltar às suas origens, o Papa santo se empenhou na restauração do canto gregoriano, então um tanto abandonado, por considerá-lo mais próprio para se cantar na igreja. Ele confiou seu incremento aos monges de Solesmes . E, no artigo 3 de seu citado Motu Proprio, declara que as qualidades do bom canto sacro, "se encontram em grau sumo no canto gregoriano, que é por consequência o canto próprio da Igreja Romana". Por isso mesmo, se deve "restabelecer o canto gregoriano [mesmo] no uso do povo". Quer dizer, esse canto não é privilégio de sacerdotes e monges, mas deve estar ao alcance de todo o povo.

E estava de algum modo antes do aggiornamento pelo qual passou a Igreja, pois praticamente todos sabiam cantar a Salve Regina, o Tantum ergo, o Adeste Fideles e outros cânticos tradicionais. O que São Pio X queria era que o uso do gregoriano fosse ainda mais generalizado.

Além disso, o Pontífice incentivou também a polifonia clássica como alternativa ao canto-chão, citando como seu mais característico exemplo o compositor seiscentista Giovanni Pierluigi da Palestrina.

Missa pro Papa Marcelli

Retrato do compositor por Henri-Joseph Hesse (1781-1849)

Abrindo aqui um parêntesis: Como deve ser, segundo São Pio X, a música polifônica a ser utilizada na liturgia? Como vimos, ele dá como exemplo a de Giovanni Pierluigi da Palestrina, que nasceu entre 3 de fevereiro de 1525 e 2 de fevereiro de 1526, possivelmente em Palestrina, na Itália, de onde lhe vem o nome pelo qual ficou conhecido. Esse famoso músico faleceu em Romano dia 2 de fevereiro de 1594. Compositor italiano de música renascentista tardia e representante principal da Escola Romana, com Orlando de Lassus e Tomás Luis de Victoria, Palestrina é considerado o principal compositor de música polifônica da Europa do final do século XVI.

Sua mais famosa obra é a Missa pro Papa Marcelli, pela qual ficou mundialmente conhecido e que se tornou ponto de referência para a polifonia religiosa clássica.

Há muitas lendas sobre a origem dessa obra de arte, misturadas a fatos verídicos dos quais damos um apanhado aqui.

É certo que, durante o Concílio de Trento, foi discutido o uso da música polifônica na Igreja. Afirmava-se então, primeiro, que "a música que é censurável [na Igreja], é a que tem por base canções seculares cantadas com letras religiosas"; quer dizer, com o ritmo e andamento da música popular. E, "em segundo lugar, [havia os que alegavam que] a entonação na música polifônica obscureceria as palavras da Missa interferindo, portanto, na devoção do ouvinte". Contudo, o Concílio não fala ainda da polifonia clássica como tal.

Com base nessas alegações, surgiu no final do século XVI o rumor de que a polifonia poderia ser banida na Igreja devido à ininteligibilidade das palavras com que era cantada.

Primeira página da Missa do Papa Marcelo.

Ora, teria ocorrido então que o futuro santo, Cardeal Carlos Borromeo (1538-1584), Arcebispo de Milão e sobrinho do Papa Pio IV, por isso muito cotado, tendo ouvido a Missa Pro Papa Marcelli, afirmou que nela se podia entender bem as palavras e que, além disso, era muito bonita para ser banida da Igreja. O que teria sido levado em consideração pelo Concílio.

Porém, a bem da verdade, não há evidência que sustente a opinião de que o Concílio procurou banir inteiramente a polifonia e de que a missa de Palestrina foi o fator decisivo para ele mudar de opinião[1].

É curioso saber que o Papa Marcelo II, a quem foi dedicada a Missa de Palestrina, teve um reinado de apenas 22 dias corridos, falecendo em 1555.

Por outro lado, a Missa de Palestrina encontrou tanta aceitação na Igreja, que era tradicionalmente cantada em todas as missas de coroações papais até a de Paulo VI, em 1963, quando novos ventos sopraram sobre a Santa Igreja de Deus.

Como deveria ser a "música mais moderna" admitida por São Pio X

Voltemos a São Pio X. Falando ainda da música na Igreja, ele fez uma exceção, dizendo que "a música mais moderna deve ser também admitida na Igreja". Contudo, o que ele entendia por "música moderna" naqueles idos de 1903? O Papa se referia às músicas que "não tenham coisa alguma de profana, não tenham reminiscências de motivos teatrais, e não sejam compostas, mesmo nas suas formas externas, sobre o andamento das composições profanas"; repetimos: com o ritmo das músicas populares.

Além disso, São Pio X, no parágrafo 15, esclarece que, embora "a música própria da Igreja é a música meramente vocal", "também se permite que seja acompanhada de órgão". E, em casos particulares, "poderão admitir-se outros instrumentos com o consentimento especial do Ordinário".

Com uma condição: que esses "outros instrumentos" só devem sustentar o canto, "e nunca o encobrir". Ou seja, nada de guitarras, baterias e que tais acompanhando as músicas, mas que estas sejam recolhidas e tenham, tanto na forma quanto no conteúdo, um profundo significado religioso.

É isso que diz no parágrafo 19, no qual proíbe na Igreja, "o uso do piano bem como de instrumentos fragorosos, [como] o tambor, o bombo, os pratos, as campainhas e semelhantes". O que pensar do uso nas Missas de modernas guitarras elétricas utilizadas também nos concertos de Rock?

Como tudo isso foi abandonado e ficou para traz! Não só não é observado hoje em dia, mas o contrário se tornou quase que a regra em muitas igrejas e capelas.

Lorenzo Perosi

Para terminar, vamos falar de um músico que foi contemporâneo de São Pio X, e muito estimado por ele, o Pe. Lorenzo Perosi (1872-1956), cuja música está muito influenciada pelo seu profundo conhecimento do canto gregoriano e da polifonia do século XVI, sobretudo de Palestrina.

Em 1898 o Papa o nomeou diretor do coro da Capela Sistina, título que depois atualizou para "diretor perpétuo". A exemplo desse Pontífice, Perosi também recusou completamente o estilo profano imperante então na Igreja, isto é, o estilo operístico surgido depois de Verdi. Ele foi muito famoso em seu tempo, principalmente nas décadas de 1890 e 1920. E até a década de 50 e início da de 60, seus motetes eram muito ouvidos nas igrejas, em latim ou no vernáculo, principalmente durante às bênçãos do Santíssimo Sacramento. (Fonte: Agência Boa Imprensa