É curioso observar como as regras, aquelas que nos são apresentadas como imutáveis, são rigorosamente aplicadas ou reinterpretadas conforme apropriado.
Por Jaime Gurpegui
Durante anos, fomos informados de que o poder civil não tem o direito de ter uma opinião sobre as nomeações dos bispos. Que isso pertence à esfera sagrada, ao foro interno da Igreja, e que qualquer interferência é coisa do passado. Uma coisa de regimes que não existem mais.
Quando o poder civil é de esquerda, parece que dar uma opinião é válido. Pressione também. Punir alguns e recompensar outros, mesmo sem dissimulação. O Vaticano, tão zeloso de sua independência no passado, não hesitou em demitir o prior do Vale dos Caídos, cedendo sem resistência à vontade de um governo abertamente hostil à fé. Onde está a tão defendida autonomia da Igreja? Tivemos que sofrer a fúria de ver Bolaños comemorar a vitória que obteve com a conivência do melífluo Cobo.
Pior ainda é o caso da China. O Vaticano não só se cala diante da ditadura comunista – que persegue cristãos, arrasa igrejas e guarda missas – mas, por sua própria vontade, deu-lhe a prerrogativa de nomear e revogar bispos. Um privilégio escandaloso, concedido a um regime inimigo de Deus e da liberdade. Que lógica justifica tal concessão? Que respeito inspira uma Santa Sé que cede aos inimigos de Cristo?
E do outro lado do Atlântico, um bispo herético é nomeado em Washington com claros gestos de hostilidade para com um presidente como Trump, um firme defensor da vida, da liberdade religiosa e da família. Um sinal claro de que, quando é conveniente, a política é feita a partir de Roma. E política partidária.
As regras, disseram-nos, eram sagradas. Que a Igreja não podia ceder aos governos. Que as nomeações eram assunto exclusivo do Papa. Mas quando a esquerda governa, a doutrina se dobra, se adapta, se torna negociável. Bem, se esse é o novo padrão, é lógico que outros o assumam.
Muitos sentem que, quando chegar a hora, partidos como o Vox – que mostrou sua defesa da fé e sua rejeição da agenda 2030 sem complexos – não esquecerão esses precedentes. Eles tomarão nota e exigirão, com razão, que o Vaticano seja coerente. Que se o governo espanhol tem o direito de influenciar os bispos, o mesmo acontecerá com um governo que defende a fé. E se os bispos alinhados com a ideologia de gênero ou o globalismo não forem do agrado de um futuro governo com outros valores, sua remoção será exigida. O que foi válido para alguns, será válido para outros.
E será coerência lógica. Se um governo de esquerda pode condicionar a Igreja, um de direita também é permitido. Se o prior pudesse ser demitido por razões políticas, Cobo também poderia ser demitido e enviado como pároco vitalício para Villamanta.
As regras mudaram. E aqueles que os manipularam hoje podem se arrepender de quebrá-los amanhã. Porque todo ato tem consequências. (Fonte: INFOVATICANA)